Hoje em dia, emigrar e começar um negócio fora de Portugal está muito mais fácil. Os apoios ao investimento e à criação de postos de trabalho multiplicam-se, assim como os recursos, ferramentas e apps que facilitam a transição de país.

Mas nem sempre foi assim. Ir para o estrangeiro era um salto no escuro e começar uma empresa um sonho remoto. Hoje, queremos homenagear aqueles que o fizeram sem um plano B, sem apps nem internet, que arriscaram o que tinham e o que não tinham por uma oportunidade. 

Vivemos na era da igualdade de oportunidades e do acesso democrático, pelo menos em teoria, à educação superior e à mobilidade jovem. Estamos no tempo da globalização, da informação na palma da mão e novo conceitos surgem todos os dias (em inglês, claro, para parecer moderno):  start ups, angel investors, coworking, growth hacking, crowdfunding, networking, pitch, etc, etc.

Os jovens investidores mais ousados e irreverentes rapidamente se apercebem que lá fora o mercado é mais competitivo e quando formam uma empresa já o fazem de olho no mercado externo. Alojamento e deslocação são apenas detalhes que se tratam em minutos, há incentivos para novas ideias de negócio, as pessoas estão academicamente formadas para as pôr prática e os apoios ao investimento e à criação de postos de trabalho multiplicam-se. 

E ainda bem que assim é! Ajudas ao investimento, à concretização de novos projetos e à criação de postos de trabalho são sempre bem-vindas. 

Mas é quase impossível não nos perguntarmos como era antigamente. Por exemplo, como era emigrar e começar um negócio lá fora nos anos 70 e 80, quando a Europa ainda se estava a erguer da guerra que acabou por mudar o mundo? 

Todos conhecemos histórias de portugueses muito jovens, às vezes com menos de 18 anos, que emigraram para a França e lá (re)começaram uma vida e construíram um negócio. Hoje, queremos homenagear aqueles que do nada construíram tudo, sem apoios, mundos e fundos, apenas a força do trabalho e a busca por uma vida melhor. 

Mas como? 

Como é que se arriscavam num país que não conheciam? Como faziam sem Google Maps (para saber onde estavam), sem Google Tradutor (para comunicar com os nativos), sem Airbnb (para terem onde ficar), sem Uber (para os levar a qualquer lado), sem Revolut (para enviar dinheiro para a família), sem Whatsapp (para manter o contacto com os entes queridos)? No fundo, como é que o conseguiram fazer num mundo sem internet e informação disseminada?

Emigrar e começar uma empresa no exterior era um salto no escuro. Uns iam com o apoio de familiares que ajudavam na busca de emprego e que lhes ofereciam estadia e algumas refeições nos primeiros tempos. Outros, iam sem qualquer ajuda. O quê e quem se ia encontrar era uma pergunta com resposta apenas à chegada. No bolso, levavam apenas um pequeno pé de meia, alguma comida e todos os sonhos do mundo. Sem escola nem canudos, sem apps nem apoios; apenas as mãos para trabalhar e o sonho de uma vida melhor. 

Para não falar dos mais jovens que, décadas antes, emigravam para fugir à inspeção, como se dizia na altura. Passavam montes, atravessavam rios, faziam milhares de quilómetros para deixarem para trás o país que os que queria pôr na frente da batalha de uma guerra que não entendiam. E isso não era para eles, nem para ninguém. 

Onde a terra se acaba e o mar começa” 


Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas

Não somos saudosistas da época da pobreza e da miséria em que se fugia de um Portugal que nada tinha para oferecer para além de salários baixos, em que ir para o estrangeiro começar um negócio era para os mais corajosos e valentes. Ainda bem que existem incentivos que tiram ideias do papel e dão emprego a jovens qualificados e capazes. Contudo, sentimos que os pequenos empresários que começaram lá fora sem os apoios de agora não têm o reconhecimento e mérito que merecem e está na altura de lhes dar palco, de ouvir o que têm para dizer e de aprender com o seu percurso. 

A construção civil foi o destino de muitos emigrantes nos anos 70 e 80.

O que é que os levou a empreender? Como gerem os seus projetos e lideram as suas pessoas? Porque é que insistem na solidariedade? O que lhes dá tanta saudade e de onde vem essa vontade omnipresente de voltar para casa? Num contexto de constante discussão sobre multiculturalidade, o que nos leva a ser um povo tão respeitado, bem integrado e socialmente aceite?

Arlindo Santos, um caso de exemplo

Arlindo Santos é apenas um exemplo dos milhares de portugueses que partiram para França sem escola, sem grandes apoios e apenas com vontade de encontrar um bom emprego e novas oportunidades. 

À Luso Press, o empresário contou a sua história. Saiu da escola com apenas 12 anos e, com a mesma idade, começou a trabalhar. Aos 14 anos, começou a trabalhar na construção civil como ajudante e, aos 16, já era “Trolha de 2ª”, denominação usada na época. Em 1980, com 18 anos, emigrou para França com a ajuda da mãe e de outros familiares, que o acolheram e ajudaram nos primeiros tempos. Em 1987, Armindo dos Santos decidiu começar a própria empresa com 3 empregados. Hoje, é empresa líder na área do revestimento de fachadas em França e tem mais de 700 colaboradores. 

Armindo confessa que sempre sonhou ter uma empresa, mas que nunca imaginou conseguir ter um empresa tão grande, que evoluiu para um grupo empresarial. Acima de tudo, Armindo queria ter uma empresa que ajudasse pessoas que, tal como ele noutros tempos, procuram novas oportunidades: “Quanto mais a gente ajuda as pessoas, mais força temos para avançar!” Para o empresário natural de Vale de Cambra, a honestidade é a base para tudo e remata dizendo que “Todos os sonhos podem ser alcançados, mas com determinação!” 

Em 1987, Arlindo Santos abriu a sua empresa em França. Hoje, são líderes de mercado e uma empresa de referência.

“Já se vê Portugal…”, dizem quando vêem a placa que anuncia a chegada à terra, à terra  natal. E nós cá os esperamos, com toda a consideração e respeito.